Desde que me separei meu filho Lucas fica um dia por semana com o pai. Hoje pela manhã eu alertei o Lucas que o pai dele iria buscá-lo ao fim do dia na escola. E acrescentei: "Vou morrer de saudades suas." Ele respondeu: "Quantos dias eu vou ficar no papai?". E eu respondi:"Um".
Eis que vem a demonstração de sensibilidade mais genuína de um ser: "E precisa de saudade?!?".
Não meu filho, não precisa, sua mãe que é exagerada mesmo.
Economia, maternidade, política, livros, recursos humanos, amor, carreira, filmes, criatividade, comidas, pessoas, lugares e viagens, educação, música, introspecção, aversão a rotina e necessidade urgente de disciplina. Vem comigo descobrir como venho sobrevivendo a mim mesma.
terça-feira, 25 de outubro de 2016
segunda-feira, 24 de outubro de 2016
Uma história sobre vendedores em semáforos, crianças, seus puros corações e pêssegos (queimados).
Toda vez que eu paro no sinal, e tem alguém vendendo algo ou pedindo dinheiro, meu filho me pergunta o que as pessoas estão fazendo ali. Eu explico (quando consigo identificar antes do sinal abrir) e ele sempre pergunta por que não dou dinheiro e nem compro nada nunca. Em geral, minha resposta é que estou sem dinheiro, o que é uma grande verdade, já que raramente tenho algum dinheiro vivo comigo.
Eis que paramos em um sinal, em uma sexta-feira, finalzinho do dia, e um rapaz nos aborda e nos oferece pêssegos. Primeiro eu recusei, mas logo em seguida lembrei que eu tinha 10,00 na bolsa. Imediatamente chamei o rapaz e perguntei quanto custavam os pêssegos. Ele disse que faria a caixinha por 12,00, eu dei mais uma procurada na bolsa, encontrei mais 2,00 e naquela pressão de o sinal poder abrir a qualquer momento, não deu tempo de refletir sobre aquela compra, e voilá, me vejo com uma caixa com uns 50 pêssegos. Comemos 4 deles e eles ainda eram muitos pra nós dois apenas.
Num surto meio desesperado por não saber exatamente o que fazer com tantos pêssegos, mudei de ideia e ao inves de ir pra casa, fui para casa de uma amiga minha. Os pêssegos, apesar de terem sido mencionados em nossas conversas, ficaram esquecidos no meu porta malas. E ficaram esquecidos quando voltei pra casa. E ficaram esquecidos durante todo sábado (que foi uma preguiça nível só levanto pra comer e ir no banheiro). Só lembrei deles já no domingo, quando minhas forças estavam recuperadas pelo sábado de ócio improdutivo. Alguns pêssegos já haviam amadurecido demais e não pareciam bons pra comer. De qualquer forma, restavam uns 40 ainda. Comemos mais dois antes de ir para o cinema e eu já anunciei: "Lucas, vais levar pêssego a semana toda pra escola."
Na segunda pela manhã, coloquei na lancheira uma maçã, dois pêssegos e uvas. A lancheira voltou vazia. Muitos pêssegos já haviam estragado quando chegamos em casa a noite. Pelo menos uns 15 foram fora. Lucas tratou de comer mais 4 e eu tomei a decisão insensata de fazer pêssegos em calda. E assim descobri porque a lata de pêssego em calda é tão cara: dá trabalho demais descascar e descaroçar a tal fruta. Mas enfim, algum arrependimento depois, lá estavam os pêssegos cozinhando em água e açúcar mascavo. Enquanto isso, eu brincava com o Lucas um pouco, olhava o Facebook outro pouco, lava roupa outro pouco, até que eu sinto um cheiro de pudim de leite e me dou conta que é cheiro de caramelo... queimado! Saio correndo e vejo uma montoeira de pêssegos descascados e descaroçados... queimados!!!
Percebam que o aproveitamento dos pêssegos foi baixíssimo. No dia seguinte a este irresponsável desperdício, o Lucas me pergunta porque a gente comprou tantos pêssegos. Expliquei para ele que eu me precipitei na compra, que me empolguei com a oportunidade de comprar frutas de um vendedor de sinal, já que eu quase nunca estava com dinheiro. E ele me presenteia dizendo: Ah é, o moço deve ter ficado bem feliz que a gente deu um dinheiro pelo trabalho dele né mamãe? Porque assim ele vai ter dinheiro pra comer né?
Infelizmente a gente não deu conta de comer todos os pêssegos. Mas pelo menos sei que, as conversas com o meu filho, quando paramos nos sinais e explico sobre as condições de outras pessoas, tem servido para plantar a sementinha da empatia, da generosidade, da preocupação com o próximo, e tem servido pra ele enxergar um mundo muito maior do que somente o da realidade que ele vive.
"Tudo está na educação. O pêssego dantes era uma amêndoa amarga (...)" Mark Twain
Bora pra próxima!
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